O senhor fingia tão bem que ainda hoje acreditamos, quando lemos essas coisas que escreveu, que seremos inteiros. Mas não se lembra de também ter escrito que a sua alma caíra pela escada excessivamente abaixo e se partira como um vaso vazio? Nesse caso tinha razão, porque somos muito mais pilha de entulho do que alguma vez seremos inteiros.
Digo-lhe mais, antes que se ponha a beber e deixe de me ouvir: se ponho tudo o que sou em cada coisa, caro poeta, falho mais curvas do que o meu corpo pode aguentar. Se nada excluo tudo devoro. E se nada exagero morrerei de aborrecimento. E agora, pergunto-lhe, o que faço? Pois, nenhum dos seus poemas me ajuda, não há ode ou soneto que funcionem como aquela canção pop que toca na rádio e que, estamos seguros, fala exactamente daquilo que estamos a sentir.
Hoje, nem palavras bonitas nem poesia de auto-ajuda. Hoje digo-lhe na cara que sou muito menos inteiro do que poderia e gostaria de ser. E agora, o que vais fazer acerca disso? O que vou eu fazer acerca disso?
Pois. Se calhar é melhor pedir mais uma rodada enquanto não tomamos uma decisão.
Não se levante, eu vou lá.
Já lhe disse que gosto muito do seu trabalho?
Hugo Gonçalves
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