Por entre o fumo das castanhas vi os dedos de cinza que devolviam o troco e a vendedora disse: "Se eu tivesse menos uns anos, não estava aqui, ia ter com a minha filha a Londres." E pus-me a pensar na mulher que, numa barraca venezuelana, explicou com sotaque madeirense: "Vim para aqui para fugir da miséria." Pus-me a pensar no dentista emigrado que, na sala de embarque do aeroporto, contou como conseguia um lugar em primeira classe: "Digo que tenho uma cirurgia importante e que preciso de descansar." Pus-me a pensar num estilista em Paris, numa especialista em segurança espacial em Londres, no homem de boina que plastifica documentos no Rossio, antigo paquete num hotel americano onde recebeu gorjetas de Jerry Lewis - tudo gente que conheci ao longo dos anos, portugueses à procura de alguma coisa que não encontraram aqui. Lembrei- -me ainda de uma madrugada, a caminho do aeroporto, quando estava prestes a recolocar a minha vida a mais de
5 mil quilómetros de Lisboa, certo da escolha mas fraco nos joelhos. O meu pai disse: "Não vais para a guerra." Claro que não. Era um privilegiado. Mas quase posso garantir que todos os que se vão embora, dos apanhadores de fruta aos investigadores científicos, do padeiro que foi para o Brasil nos anos 60 aos milhares que saem agora do país, todos sentiram os joelhos fracos em algum momento. E era isto que devia ter dito à mulher das castanhas: por mais longe que vá, por mais zangada que esteja com este país, é aqui que vai querer voltar um dia. Mesmo que seja para ir embora outra vez.
Hugo Gonçalves in "i"
11.15.2010
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