Toma banho, penteia-te e não vistas roupas de poeta não publicado. Não leves música nos auscultadores, porque vais precisar de todos os sentidos. Na livraria, evita a zona dos dicionários, as suas leitoras são compulsivas no envio de emails e mensagens, deixam-te bilhetes no pára-brisas com palavras que não conheces, mas que te amaldiçoam. Na zona de livros estrangeiros procura a estudante de mestrado com as feições brancas de um país a norte. Se for leitora de Philip Roth, esquece, gosta de homens mais velhos e tu não tens o brilhantismo ou a maturidade do professor universitário que saca a aluna. Se ela segura um livro de Mario Vargas Llosa, aproveita porque as leitoras de prémios Nobel recentes costumam ser como as solteiras que se embebedam num casamento. Na secção de poesia tem muito cuidado. Tanto podes encontrar a menor de idade gótica que te proporia sex chat no Messenger como a divorciada que escreve sonetos desde os 12 anos. Poesia só em noites de excesso com direito a ressaca moral. Já a zona de novidades e do top está para o engate como o bar de hotel está para a sedução nos filmes. É aí que tudo acontece, uma espécie de rede social ao vivo, gostos partilhados como num ecrã de computador: Like ficção de vampiros & António Lobo Antunes. Não te vou mentir, uma livraria não tem a fluidez erótica de um bar e muitas vezes as mulheres vão ignorar-te com a mesma expressão dos escritores que desprezam o Paulo Coelho. Toma banho, penteia-te e relaxa as sobrancelhas literárias. Vai ser muito melhor que ficar em casa a ler um livro.
Hugo Gonçalves in "Jornal i"
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