Ele tem na cara os vincos de um dia longo e o frio da rua ainda desbota do sobretudo. Senta-se numa poltrona como se descalçasse os sapatos. Está num dos salões do hotel Ritz e há uma pianista de franja dedilhando "As time goes by." Estamos sozinhos: dois homens que não escolheram uma cadeira no bar mas que reconhecem o apelo do som dos copos, ao fundo, como instrumento inevitável num concentro de fim de tarde. Estamos os dois reflectidos na enorme janela e lá fora, atrás do vidro, estão copas de árvores e neons colados em prédios e a cidade toda. Os dois sempre atentos ao piano que toca "All the way" e seguros de que já vimos esta cena em algum lado - a solidão a pedir o fundo de um copo e um bar de hotel com um desconhecido que nos acompanha ao táxi e nos dá o braço após a bebedeira. Mas nenhum de nós chama o empregado. Ficamos quietos, aproveitando o privilégio de um piano exclusivo, com a certeza adolescente que aquela música foi escrita para nós e que nos encontramos a salvo no abrigo de um hotel onde os vagabundos inconsoláveis podem acreditar que uma canção, tocada no piano por uma mulher bonita numa noite de Inverno, pode providenciar o sentido da vida. Ele levanta-se, olha para a tapeçaria de Almada Negreiros na parede: um centauro. Olha como se fosse a sua própria imagem no espelho da janela. Metade bicho e metade homem. Prepara-se para sair e faz uma pequena vénia de agradecimento para a pianista. Depois olha para mim como se levantasse mais um copo a fim de celebrar os românticos abandonados, como se fosse meu amigo, como se dissesse: "Metade bicho, metade homem".
Hugo Gonçalves in "Jornal i"
1.30.2011
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2 comentários:
Fique bastante impressionado com a essência deste blog, muito boa onda.
Parabéns, perdi horas sem fio a ver e rever todo o feeling que aqui transmites !!
Hey!
Obrigado pelo comment.
É um projecto pessoal, portanto todo o feedback é bem vindo.
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