1.26.2011

Miuda das Belas Artes

Ela não se importa com a pouca luz que entra pela janela do café e continua a desenhar no caderno, tal qual o gato de Pessoa que brinca na rua como se fosse na cama. Tem uma boina que não a faz mais artista mas que a deixa mais bonita. Bebe chá e enrola cigarros com dedos delicados de papel. Não sabe ainda que será o fascínio de um homem muito mais velho, talvez um professor da faculdade, ou apenas um poeta de cama que fumará o tabaco dela e insistirá em usar T-shirts com a cara de Rimbaud. Não será a perdição de nenhum dos amantes. E terá muitos mais. No café cada vez mais escuro, tão aborrecida que faz beicinho, olha para a sua companheira de mesa e, com o desdém daqueles que não pertencem a qualquer grupo, diz: "Se tivesse Facebook escrevia lá: Cavaco, o regresso da múmia." Não quer ser original mas gosta de ter mau feitio. Tem um amigo bicha a quem dá beijos na boca e que, em noites de vinho tinto manchando os dentes de riso e de haxe, adormece no sofá-cama sem tirar a roupa. Está-se a cagar para os programas de moda na televisão, embora goste de lingerie que não pode comprar. Olha para o agarrado que vende lacinhos e dá-lhe umas moedas. Depois diz: "Com tanta gente mais velha aqui, com mais possibilidades, e vem pedir-nos a nós." Sendo eu o matusalém da sala, preparo-me para dar uma nota ao agarrado, sabendo que daqui a uns anos ela será pintora ou destruidora de casamentos ou ganhadora de algum prémio importante. Mas nesse dia eu serei velho de mais e ela já não saberá fazer beicinho.

Hugo Gonçalves in "Jornal i "

2 comentários:

Anónimo disse...

hahaha, bom texto!

realmente descreve practicamente todas as miudas das belas artes...

I am from Lisboa disse...

Gosto mesmo da escrita deste senhor, faz sempre umas análises com truque e ironia. Tenho a sorte de todos os dias ter qualquer coisa sempre nova para ler ;)
Damn nice!