Temerária mas pouco segura, desce a calçada e prende um salto nos carris, apoiando-se no braço da amiga como se agarrasse o namorado que não tem. Na sua folha de serviço amoroso: nenhum casamento, duas casas partilhadas com homens diferentes, uma certa indiferença ao pulsar da maternidade a não ser quando vê bebés gémeos; também já não diz "Não costumo fazer isto" se por acaso está na cama com alguém após o primeiro encontro. Ela entra no Bicaense e mais tarde reaparece com um copo na mão, o que torna difícil calçar as luvas. Um tipo com cara de artista, cabelos grisalhos de "podia ser teu pai mas não teu avô", e mãos que tanto esculpem a pedra como atacam as coxas, ofereceu-se para segurar no copo. Não era a primeira vez que ela era abordada por tios, jornalistas de televisão, líderes da manada. O tipo tinha um sobretudo de golas levantadas e o melhor que conseguiu foi: "O que é que fazes na vida?" Folha de serviço laboral: publicidade, voluntariado nas Honduras, mestrado, publicidade, despedimento, período para pensar na vida. Ele tocou-lhe na cintura depois do terceiro vodka. Disse: "Vamos embora não vás ficar constipada." Ela riu-se como se tivesse fumado um charro e olhasse para um espantalho. Naquele momento decidia a noite: sexo com o mestre canastrão ou dançar com as amigas no Jamaica? Pensou na sala desarrumada, na loiça do jantar, na possibilidade de ter um homem a mijar-lhe a retrete logo de manhã. Respondeu: "Fica para a próxima." E ele soube que ela, por vezes solitária em noites de semana, dizia a verdade.
Hugo Gonçalves in "Jornal i"
2.18.2011
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