Sentado numa praceta em Barcelona, tenho ao meu lado um louco que ri e que chora. A praça é grande, o banco é largo, as pessoas muitas. Domingos ensolarados de Inverno em Barcelona dão nisso: ruas plenas de famílias, crianças por todos os lados. Porém, naquele banco, reinava solitário o louco risonho e chorão, espécie de espantalho, afugentando, com as suas gargalhadas e lágrimas, o resto da sociedade.
Sou um despistado. Sentei-me ali porque havia lugar e nem tinha notado aquela que seria a minha insólita companhia. Abri o meu jornal e pensei passar despercebido. Só alguns minutos depois é que os ruídos do homem me chamam a atenção. E também só aí reparo que, pelos cantos dos olhos, as outras pessoas acompanham a pequena tragicomédia que acontece naquele banco.
Quase sem querer, deixo a minha leitura de lado e viro-me para o homem num momento em que ele solta uma contagiante risada. Em seguida, vem o choro. E depois outra risada. E depois mais soluços e choro. Aquilo hipnotiza-me. Por defeito de cronista, fabulo sobre o que teria acontecido na vida daquele desconhecido. Que tipo incrível de miséria ou de felicidade teria sucedido. Mas as motivações dele são irrelevantes. O que eu estou a assistir é um pequeno espectáculo de teatro moderno. As mudanças de humor do louco são a síntese da nossa própria existência. Podemos até achar que a alegria será farta e infinita ou que a desgraça quando vem é para sempre. Mas os nossos dias são apenas um amontoado aleatório de choros e de risos.
Talvez dando-me razão, o louco interrompe a função e encara-me. Levanta-se de rompante, esbravejando em catalão algo que traduzo livremente como um "já não se pode enlouquecer com privacidade numa praça pública, joder!" Em passos largos, abre o caminho entre pombas e niños, deixando-me abandonado. As famílias continuam a fingir que nada se passa, mas o certo é que ninguém se senta para me fazer companhia. Incomodado com aquele falso anonimato (tenho certeza que todos me julgam herdeiro da inconstância do louco) quase choro e sorrio (o que teria feito bem a minha alma, tenho sempre motivos para soltar risos e verter lágrimas). Hipócrita, acho melhor sair dali. Já do outro lado da praça, olho para trás (com um certo medo de me tornar uma estátua de sal) e vejo que no banco se sentou-se um casal de namorados. E, no beijo dos amantes, sinto a praça mais calma. A normalidade havia sido, enfim, restaurada. Concluo: o mundo não foi feito para os que riem e que choram. O mundo não foi feito para mim.
Edson Athaíde in "Jornal i"
2.16.2011
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