Os homens podem estar dispostos a andar ao estalo por causa de um carro mal estacionado ou a carregar móveis sozinhos pela escada – "Fica quieta, eu faço isto sozinho" –, mas espirram três vezes seguidas e começam a queixar-se como se fossem vítimas da peste. Podem não choramingar com uma entrada a pés juntos no jogo de futebol das quintas-feiras depois do trabalho, preferindo ladrar: "Eu já te fodo uma perna", mas com calafrios na pele e a garganta inflamada precisam tanto de colo como um cão triste de calendário. Podem aguentar um funeral sem um vacilo nos joelhos, bater com a porta a meio de uma discussão, suportar o frio por causa do casaco emprestado aos ombros da namorada, mas basta uma congestão nasal com subida da temperatura do corpo para se meterem na cama esperando chás, torradas, maçã assada, mimos e comprimidos em vez supositórios. Não saberia explicar que atributo da biologia das mulheres permite que conduzam um camião durante uma febre flamejante enquanto têm um ataque de tosse e mudam uma fralda. Sobre o gene masculino da pieguice, sei que nós até podíamos ir trabalhar ou sair para comprar remédios ou mudar de roupa interior, mas preferimos a posição fetal na subcave do edredon. Talvez sejamos assim por causa das mães com mãos curativas, por causa da nossa preguiça de homens adultos ou da noção que o corpo, afinal, não é de borracha como na infância a saltar telhados. Talvez sejamos mesmo mais piegas do que gostaríamos de ser. Mas também é possível que só queiramos ver televisão na cama como quem falta à escola em dia de teste.
Hugo Gonçalves in "jornal i"
Hugo Gonçalves in "jornal i"
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