Ele acorda, levanta-se do chão e olha em redor. Na cama encontra uma Branca de Neve, uma enfermeira e um estrunfe que manchou as almofadas de tinta azul. Como vai contra várias peças de mobiliário, não precisa de chegar ao espelho para se lembrar que está vestido de urso de peluche. Mas só diante do reflexo, na casa de banho, percebe que os lábios manchados de tinto têm a mesma cor que o olho negro. Enquanto tenta abrir a parte de baixo do fato diante da retrete, lembra-se de ter estampado a cara contra o braço de uma poltrona. Puxa o autoclismo e avança para a sala: beatas a verter dos cinzeiros, latas pela alcatifa, o sono colectivo de um Darth Vader, uma bailarina e um professor de ténis. Entra na cozinha e encontra o troféu de primeiro prémio no concurso de máscaras, que recebeu das mãos de uma Jessica Rabitt com sotaque algarvio e menos peito que a original - também dava explicações de Geometria Descritiva e era ex-praticante de ginástica rítmica. Talvez se tenham beijado. É bastante provável que se tenham beijado. Bebe muita água e pega no troféu. No corredor cruza-se com um polícia descamisado e despenteado que pergunta: "Alguém fez café?" Ele abana a cabeça e as enormes orelhas de peluche parecem um radar. O polícia acende um cigarro: "Tiveste muito bem ontem. Parabéns." Ele ergue o troféu como se fossem tirar uma fotografia e diz: "Estou muito longe da Baixa?" O polícia: "Que Baixa?" Ele: "De Lisboa." O polícia deita fumo de cigarro pelo nariz e informa: "Urso, tás em Torres Vedras."
Hugo Gonçalves in "Jornal i"
3.08.2011
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