12.15.2009

Os corações também se gastam

Encontrei-te por acaso, no fundo de uma das gavetas do peito.
Sacudi-te o pó e logo despontou aquele olhar sisudo mal disfarçado, de quem foge com a saudade escondida no canto do olho. Quase te vi o sorriso a escapar por cima do ombro, mas esse não cabe no tempo.
Nem toda a indiferença é feita de folhas brancas. São memórias deixadas no sótão do coração, resgatadas a dias que foram e mastigadas pela alma que já deixa a vida correr descansada e sem medo.
Ficaste-me na garganta. (E eu por lá te deixei).
Sais aos poucos, escrita por palavras minhas misturadas com as de outros, que não me sabem ao amargo de tempos passados.
És melhor como memória do que ilusão.
Escrevo-te enquanto história de amor vivido a conta-gotas. Plena em solavancos e soluços resolvidos pelo silêncio do tempo que já passou…
Os corações também se gastam.
Hoje li escritos esquecidos e deixei cair um sorriso…
Com jeito e cuidado, voltei a apanhá-lo do chão e guardei-o contigo naquela mesma gaveta.
Palavras que não custam, escritas onde podia ter ficado outro espaço em branco.

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