3.18.2011

Na ponta dos teus dedos

Deixa-me falar-te do João, que diz "mãe", "pai" e "macaco". Deixa-me falar-te no orgulho da mãe do João, tua amiga, quando comentei: "Macaco? Já diz palavras com três sílabas." Íamos no carro a caminho de ti. Lá estavas, na igreja, lendo palavras de despedida. O corpo do teu pai ali - o pai que vestiste esta manhã e a quem apertaste a mão, o pai que esta vila celebra com cortejo oficial e bandeira a meia haste, porque levou luz e saneamento onde só havia atraso. Mas não é do teu pai que te quero falar. O João faz barulho de motor em aceleração se o empurro no carrinho. Ri-se quando o atiro ao ar. E porque ele quer observar os miúdos que jogam futebol na rua, não olho para ti no cemitério. Há nuvens de chumbo, vejo um Intermaché atrás dos jazigos, o teu pai morreu, pode chover a qualquer momento e, no entanto, é a tua cara, quando vês o João, que ficará nas costuras da minha memória. Gostava que pudesses ver o que vejo, aquilo que está por trás do luto elegante e da maquilhagem que resgata os olhos cansados: o teu espanto com a dádiva da vida, a coragem de estar de pé depois de cada queda, a tua fé na beleza, na bondade e no amor. Desculpa mas não consigo falar do fim porque passei horas com o princípio: o João de ranho no nariz, para quem tudo é esplendorosamente novo, sejam as cócegas quando toca num arbusto seja a tampa de uma garrafa que salvou do chão. Descemos a rua e ponho o braço sobre os teus ombros, os teus dedos seguram-se a mim. Os teus dedos poderão sempre segurar-se a mim. O João vai no carrinho: "Ma-ca-co." O princípio de tudo, não o fim.

Hugo Gonçalves in "Jornal i"

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